“Eles queriam que eu começasse na mesma hora”: falta de médicos na Itália abre portas para brasileiros em áreas estratégicas
Quando o médico brasileiro Lucas Camargo chegou à Itália, em 2023, não demorou para perceber que a escassez de profissionais não era apenas um dado estatístico. Ela estava escancarada no dia a dia dos hospitais.
“Eles estavam desesperados por médicos. Já na conversa inicial queriam que eu começasse naquela hora”, relembra.
Formado no Brasil em 2021, Lucas encontrou em solo italiano um cenário de demanda urgente, equipes reduzidas e serviços pressionados, especialmente nas áreas de atendimento contínuo. “Eu comecei a fazer muito mais medicina aqui do que no Brasil. O grau de responsabilidade é grande, não só com o paciente, mas com a direção do hospital e com os colegas médicos. Até a dinâmica das consultas é diferente”, relata.
A experiência de Lucas reflete um problema estrutural que a Itália enfrenta e que deve se intensificar nos próximos anos.
Escassez de médicos já impacta o sistema de saúde
A Itália vive uma falta crescente de médicos que já afeta o funcionamento do sistema público de saúde. O cenário é impulsionado por dois fatores principais: a aposentadoria em massa de profissionais formados nas décadas anteriores e o envelhecimento acelerado da população.
Projeções de entidades médicas italianas indicam que a carência de profissionais tende a se agravar ao longo dos próximos anos, especialmente em especialidades consideradas essenciais para o atendimento hospitalar e ambulatorial contínuo.
Diante desse quadro, o país passou a intensificar a busca por médicos estrangeiros, inclusive fora da União Europeia. Brasileiros entram nesse radar por reunirem formação prática sólida e experiência clínica diversificada.
Emergência, geriatria e outras áreas no centro da demanda
A necessidade não é homogênea e se concentra nas áreas de linha de frente e no cuidado de pacientes crônicos e idosos. Hoje, as especialidades mais procuradas na Itália incluem:
– Medicina de emergência e pronto-socorro, devido à sobrecarga dos atendimentos
– Geriatria, impulsionada pelo envelhecimento da população
– Pediatria, sobretudo fora dos grandes centros urbanos
– Anestesiologia, essencial para cirurgias e UTIs
– Psiquiatria, diante do aumento dos transtornos mentais no pós-pandemia
– Medicina interna, base da assistência hospitalar italiana
Essas áreas concentram grande parte das vagas abertas tanto no sistema público quanto em hospitais conveniados.
Onde a falta de médicos é ainda mais grave
As oportunidades variam conforme a região. No Norte da Itália, apesar da melhor infraestrutura hospitalar, há déficit significativo em pronto-socorro e anestesiologia. Já o Sul e as regiões do interior enfrentam dificuldade crônica para atrair profissionais, especialmente pediatras, clínicos gerais e geriatras.
Nesses locais, médicos estrangeiros encontram processos de contratação mais rápidos, desde que atendam aos critérios exigidos pelo sistema italiano.
Por que brasileiros ganham espaço
Segundo a médica brasileira Gabriela Rotili, que atua na Itália desde 2021 e hoje orienta profissionais interessados em seguir o mesmo caminho, a experiência prática do médico formado no Brasil é um diferencial relevante.
“O sistema italiano valoriza muito a vivência clínica. Médicos que já passaram por pronto-atendimento, enfermarias e hospitais de grande porte costumam se adaptar melhor, especialmente em áreas como emergência, geriatria e medicina interna”, explica.
Além da especialidade, outros fatores pesam na contratação:
– Experiência comprovada
– Conhecimento funcional do idioma italiano
– Disponibilidade para atuar em regiões com maior carência
– Interesse em contratos no sistema público
“A demanda existe, mas não é automática. O médico precisa estar preparado para o processo e para a realidade do trabalho”, alerta.
Oportunidade real, mas que exige planejamento
Apesar do cenário favorável, especialistas reforçam que o caminho envolve etapas fundamentais, como o reconhecimento do diploma, o domínio do idioma e a adaptação ao modelo de saúde italiano.
Ainda assim, para muitos médicos brasileiros, a Itália deixou de ser apenas um projeto distante. “Hoje, ela representa uma alternativa concreta de carreira, especialmente para quem atua em especialidades estratégicas”, conclui Gabriela.
Encaminhado por: Thaise Guidini


